- Foto meramente ilustrativa
Conhecemos o contexto histórico por trás dos
refugiados sírios, os relatos dramáticos, vemos imagens, lemos depoimentos,
acusações, críticas, sugestões, questões políticas, religiosas e humanitárias,
tudo isso tem sido mostrado pela mídia e está em todas as redes sociais. Muito
sabemos sobre essa guerra civil que iniciou em 2011 e já matou mais de 240 mil
pessoas, deixando mais de 4 milhões de refugiados, mas isso é só o que nos
contam - ou vemos na TV, no conforto dos nossos sofás, longe da realidade cruel
de uma guerra.
Imagine que você é uma criança de seis anos, uma
menina comum, que frequenta a escola, tem amigos com os quais gosta de brincar,
pratica sua religião e vive em paz com sua família em seu país de origem, a
Síria. Sim, você é uma criança síria e vive lá, ou vivia... Uma Síria governada
com mão de ferro por Bashar al-Assad, eleito e reeleito há mais de três
décadas. Um país marcado por conflitos há séculos, com um governo ditador, onde
política e religião são motivos de revoltas. Uma região que foi sede de várias
batalhas, foi dividida e unificada várias vezes, invadida e governada por
diversos povos e que hoje é palco de um caos instaurado.
O povo sírio está cansado disso tudo, quer paz,
alguns não conseguem compreender por que seu país está em guerra e porquê
precisam sair dele. Mas, eles acompanharam os acontecimentos, viram quando e
como começou essa guerra, e sabem que a vida que conheciam acabou.
No entanto, você, a criança de seis anos, não. Tudo
que sabe é que, de uma hora para outra, não pode mais sair para brincar com
seus amiguinhos, pois a praça onde se encontravam, não existe mais. Que não
pode mais ir à escola aprender a somar ou multiplicar, pois ela está debaixo de
escombros. Que não consegue dormir à noite com medo dos bombardeios atingirem
sua casa e machucarem a mamãe ou o papai, mesmo que nem saiba o significado da
palavra “bombardeio” ainda. Precisa viver presa dentro de casa com medo, medo
de tudo.
Aos seis anos, não sabe o que são e nem porquê
acontecem essas lutas, mortes, tiros, bombas barulhentas. Tanta dor, sofrimento
e um mundo inteiro vai ao chão, o seu mundo. Um mundo que ela não reconhecerá
mais quando crescer, se crescer. Sua identidade está sendo roubada, sua cultura
dilacerada, suas raízes arrancadas da terra à força, e você nada pode fazer
para estancar tanto choro jorrando
casa de sua família é atingida uma, duas, três, quatro
vezes, destruída completamente, você se salva e foge. Muda-se para uma das tendas
precárias improvisadas em meio a outras centenas de famílias que suplicam por
piedade. Ferida, foragida, faminta, escondendo-se do horror impregnado na pele,
na alma.
Mas, sabe que não pode ficar, não suportará muito
tempo, o perigo ainda é iminente. E agora, que não há mais como retroceder, que
não há mais para onde ir, foge novamente e, dessa vez, o que sabe é que está a
caminho de algum lugar, qualquer lugar onde não existam esses barulhos
horríveis ensurdecedores das bombas e, quem sabe, possa parar de fugir, voltar
a brincar, e as coisas possam fazer sentido novamente.
Ela é apenas mais uma das milhares de pessoas que
estão fugindo do país, que se aglomeram em navios, barcos, botes e outras
embarcações que não suportam o peso de tanto desespero, gente que tenta, num
golpe de sorte, encontrar gente que seja capaz de ajudar, pessoas devastadas de
tanto se esconder e fugir da miséria que tomou sua terra natal, refugiados da
atual guerra civil da Síria.
Essa criança não sabe o que é uma guerra, não o
seu conceito, aquele que nós aprendemos na escola, que fala dos motivos
políticos/religiosos de seu estopim, o porquê de pessoas se digladiarem dia e
noite e não permitirem que ela possa acordar em sua cama quentinha e ter mais
um dia comum. Mas ela aprendeu como é a guerra e todo sofrimento que pode
causar, conheceu sua pior face e ela, a menina que fugiu, nunca mais será a
mesma.
Fonte:
http://obviousmag.org/exescrevinhos/2015/10/a-menina-que-fugia.html